Como parar de procrastinar: como começar mesmo sem vontade
Você sabe que precisa responder aquele e-mail ou atualizar o currículo. Mesmo assim, o dia passa e a tarefa continua no mesmo lugar, agora com um peso extra: a culpa por não ter começado. À noite, a promessa de recomeçar amanhã parece sensata, até que o amanhã se repete.
Adiar tarefas importantes é uma experiência muito comum e raramente tem a ver com falta de caráter. Quase sempre existe uma razão específica por trás do adiamento, e cada razão pede um tipo diferente de ajuda. Por isso, uma dica única para todos os casos costuma falhar.
Neste artigo, nós, da Equipe Life, propomos dois passos: entender por que você está evitando essa tarefa em particular e escolher um começo pequeno o bastante para ser dado hoje. Não prometemos cura nem fórmula mágica, e este texto não substitui a orientação de um profissional de saúde.
Procrastinar não é só preguiça: o que costuma estar por trás do adiamento
Preguiça sugere que você não quer fazer nada. Quem adia, porém, muitas vezes faz bastante coisa: arruma a gaveta, responde mensagens menos urgentes, pesquisa só mais um pouco. O que se evita é aquela tarefa específica.
Em muitos casos, ela desperta um desconforto: medo de errar, receio de ser julgado, dúvida sobre por onde começar, cansaço ou a sensação de que aquilo não faz sentido. Adiar alivia esse desconforto na hora, o que reforça o hábito. Só que o alívio dura pouco, a tarefa volta maior e a culpa vem junto. Enxergar esse ciclo ajuda a trocar a autocrítica por curiosidade.
Descubra por que você está evitando ESSA tarefa
Em vez de perguntar o que há de errado com você, pergunte o que há de difícil nessa tarefa. A resposta muda de um caso para outro. Veja cinco causas comuns, com a estratégia que costuma combinar com cada uma, e depois um mini-exercício de três perguntas para identificar a sua.
- Medo de errar ou de ser julgado: escreva uma versão ruim de propósito, só para você, sem enviar a ninguém. Rascunho feio é permitido.
- Tarefa confusa: o obstáculo é não saber o primeiro passo. Troque a tarefa por uma pergunta pequena, como 'o que eu preciso descobrir antes?', e peça orientação se for preciso.
- Perfeccionismo: defina antes o que é 'bom o suficiente' e um limite de tempo. Uma primeira versão pronta costuma valer mais do que uma perfeita que nunca sai da cabeça.
- Cansaço: diminua a tarefa ou mude o horário, em vez de se forçar. Descansar também faz parte do plano. Se o cansaço for constante e não melhorar com descanso, vale conversar com um profissional de saúde.
- Falta de sentido: ligue a tarefa ao motivo dela, em uma frase. Se ela realmente não faz mais sentido, vale considerar tirá-la da lista.
- O que exatamente eu estou evitando? Escreva em uma frase concreta. Em vez de 'o e-mail difícil', tente 'responder ao cliente que reclamou do prazo'.
- Qual seria o menor começo possível? Pense em algo de dois ou três minutos. No mesmo exemplo: escrever só a saudação e um agradecimento pelo contato.
- O que me atrapalha agora? Pode ser um sentimento (medo de soar defensivo), uma dúvida (não sei o que prometer) ou o ambiente (notificações, barulho). Anote sem se julgar e resolva essa barreira primeiro, se der.
O primeiro passo ridiculamente pequeno e a regra dos cinco minutos
Começar costuma ser a parte mais pesada porque a mente imagina a tarefa inteira de uma vez. O passo ridiculamente pequeno reduz o começo a algo tão simples que fica difícil dizer não. Ele só precisa colocar você em contato com a tarefa.
A regra dos cinco minutos complementa: combine trabalhar por apenas cinco minutos, com um cronômetro, e só então decidir se para. Parar é permitido de verdade. Algumas pessoas notam que, depois de começar, o incômodo diminui, mas nem sempre acontece, e tudo bem: cinco minutos já são mais do que zero.
- E-mail difícil: escrever a primeira frase e salvar como rascunho, sem enviar.
- Trabalho acadêmico: abrir o documento, escrever o título e listar três tópicos.
- Currículo: abrir o arquivo antigo e preencher só nome, contato e o último cargo.
- Conversa adiada: anotar em duas linhas o que você quer dizer, ou apenas propor um horário para conversar.
Deixe a tarefa mais leve: divida e defina o próximo passo concreto
Tarefas como 'fazer o trabalho final' não dizem à mente o que fazer em seguida, e quanto mais vaga a tarefa, mais fácil adiá-la. A saída é dividir o todo em partes e escolher só o próximo passo concreto: algo que comece com um verbo (listar, escrever, ligar) e caiba em uns 15 ou 30 minutos.
Com 'atualizar o currículo', as partes poderiam ser listar empregos e cursos, escrever duas linhas sobre cada um e pedir que alguém leia. O próximo passo, hoje, é só listar os cargos.
- Escreva em uma frase o resultado que você quer alcançar.
- Liste as partes da tarefa, sem se preocupar com a ordem perfeita.
- Escolha a primeira parte e transforme-a em uma ação com verbo.
- Marque dia, hora e lugar. Um horário combinado costuma ajudar mais do que um 'um dia desses'.
- Ao terminar, já defina o próximo passo, para amanhã não recomeçar do zero.
Prepare o ambiente: menos atrito para começar, mais barreiras para as distrações
Quando já existe resistência, cada pequeno obstáculo pesa mais: procurar o arquivo, achar o carregador, abrir três programas. Diminua esse atrito antes de precisar dele.
Com as distrações, faça o contrário e coloque barreiras. Não é questão de força de vontade, e sim de desenho do ambiente: é mais fácil resistir ao que não está ao alcance da mão.
- Deixe na véspera o arquivo, o caderno ou os links da tarefa já abertos.
- Durante os cinco minutos, deixe o celular em outro cômodo ou no modo não perturbe.
- Feche abas e aplicativos que não tenham relação com a tarefa.
- Se ajudar, trabalhe perto de alguém, como em uma biblioteca ou em uma chamada silenciosa com um colega.
Erros que pioram a procrastinação
Algumas atitudes, mesmo bem-intencionadas, alimentam o ciclo do adiamento. Culpa e listas enormes, por exemplo, costumam aumentar justamente o desconforto que levou você a adiar. Reconhecer essas atitudes ajuda a trocá-las por algo mais gentil.
- Se punir com culpa: ela aumenta o desconforto, e adiar é justamente a forma de aliviá-lo. Tente algo como 'ficou difícil, mas posso começar pequeno'.
- Montar listas gigantes: trinta itens paralisam. Escolha até três prioridades para o dia.
- Esperar a motivação chegar: muitas vezes ela aparece depois de começar, não antes. Combine a ação com o horário, e não com o humor.
- Fingir que está produtivo: arrumar a mesa ou reorganizar a agenda, se serve para fugir da tarefa principal, é adiamento disfarçado.
Quando o adiamento é constante demais e vale conversar com um profissional
Adiar de vez em quando faz parte da vida de quase todo mundo. Vale conversar com um psicólogo ou um médico quando o adiamento se repete em várias áreas, causa prejuízo frequente no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos, ou vem com sofrimento intenso. Nós não diagnosticamos nada: só um profissional pode avaliar o seu caso.
Anotar a semana ajuda a levar exemplos concretos para a consulta. Você pode usar um caderno ou o Acompanhar a Vida, do Life, em que cada semana recebe notas de 0 a 5 em grupos como Corpo, Dinheiro, Pessoas e Mente.
Se, junto com o adiamento, aparecerem sentimentos muito pesados, como desesperança, ou pensamentos de se machucar ou de que a vida não vale a pena, procure apoio sem esperar. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas por dia, gratuitamente, e também pelo site cvv.org.br. Em risco imediato, ligue para o 192 (SAMU).
- Procrastinar raramente é só preguiça: costuma haver um desconforto específico por trás da tarefa evitada.
- Cada causa pede uma estratégia diferente, então responda às três perguntas antes de tentar qualquer truque.
- Um primeiro passo ridiculamente pequeno e cinco minutos de tentativa reduzem a resistência de começar.
- Dividir a tarefa e definir o próximo passo, com dia e hora, torna o começo mais fácil.
- Se o adiamento causar sofrimento intenso ou prejuízo frequente, converse com um psicólogo ou médico.
Perguntas frequentes
Procrastinar significa que eu tenho algum transtorno?
Não necessariamente. Adiar é muito comum e pode ter causas simples, como cansaço, medo de errar ou tarefa confusa. Só um psicólogo ou médico pode avaliar o seu caso, e vale procurá-los se o adiamento causar sofrimento intenso ou prejuízo frequente.
A regra dos cinco minutos funciona sempre?
Nenhum método funciona para todo mundo. Para muitas pessoas, ela reduz a resistência de começar e continuar depois fica mais fácil. Se você parar nos cinco minutos, tudo bem: o começo foi feito e a tarefa fica menos assustadora na próxima vez.
E se eu não conseguir nem dar o menor passo possível?
Volte às três perguntas e reduza ainda mais o passo, por exemplo apenas abrir o arquivo. Observe se há cansaço, medo ou uma dúvida travando e resolva isso primeiro. Se a dificuldade for frequente, converse com um profissional.
Este texto tem caráter informativo e não substitui a orientação de um profissional de saúde. Em caso de sofrimento intenso, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia (cvv.org.br).